Simonini
Atrás de toda coisa bela, há sempre um quê de trágico. Para que desabroche a mais insignificante das flores, é necessário o trabalho de mundos... Oscar Wilde
Perfil
Nome: [Eduardo]
Idade: [31]
Signo: [Libra]

ICQ: 137794328
E-m@il: simonini@homenet.com.br

Blogs Legais
Dicas
Link 3

Sites Legais
ufv
biblioteca
autopoiese
deleuze
omelete
lilianeaps1
oestrangeiro

Visitas:

Google

Posts
Comments:
Sábado, Julho 19, 2003

Tenho passado tempo demais em rodoviárias. De certa forma, as rodoviárias são espaços sem habitantes. O movimento é a regra nesse território onde ninguém se enraíza.
A rodoviária do Rio de Janeiro por exemplo (lugar onde fico semanalmente cerca de meia hora a quarenta e cinco minutos) possui tão poucos bancos onde se possa sentar (isso, comparado ao fluxo de pessoas que passa por lá) que tal fato denuncia o aspecto de passagem desse espaço. O que fiz então, para tentar achar um lugar desse da fluidez da rodoviária, enquanto esperava pelo meu ônibus?! Comprei um livro de Oscar Wilde, chamado ¿O Retrato de Dorian Gray¿. Esperava encontrar ali um chãozinho onde aportar, enquanto esperava minha hora de embarcar. Mas ler esse livro, me lançou, em vários momentos, também dentro da experiência de estar sem chão. Entendi então alguns dos motivos que tornaram esse livro uma heresia no ano em que foi publicado (1891)..., uma deliciosa heresia. Deixo aqui com você alguns trechos que selecionei o livro (pelo menos até onde eu o li). No início pensei em colocar os trechos e comentá-los, mas não quero direcionar a reflexão sua. Então..., ouça as palavras de Wilde (a maioria delas proferidas através do personagem Lorde Henry) e tire suas próprias conclusões:

*Somos punidos pelo que enjeitamos. Todo impulso que nos empenhamos em sufocar incuba no nosso espírito e nos envenena. Peque o corpo uma vez, e estará livre do pecado, porque a ação tem um dom purificador . Nada restará então salvo a lembrança de um prazer; ou a volúpia de um arrependimento. A única maneira de se livrar de uma tentação é ceder-lhe. Resistamo-lhe, e a nossa alma adoecerá de desejo do que proibimos a nós mesmos. *

*É triste, mas o gênio dura mais que a beleza *

* Os que são fiéis conhecem só o lado trivial do amor. A infidelidade é que sabe das tragédias do amor *

* Os que amam só uma vez na vida é que são superficiais, meu rapaz. O que chamam de lealdade e fidelidade é a meu ver letargia do hábito ou falta de imaginação. A fidelidade é para a vida emotiva o que a coerência é para a vida intelectual: simplesmente uma confissão de insucessos *

* Porque influenciar uma pessoa é emprestar-lhe a nossa alma. Essa pessoa deixa de Ter idéias próprias, de vibrar com suas paixões naturais. As suas qualidades não são verdadeiras. Os seus pecados, se é que existe o que se chama pecado, vêm-lhe de outrem. Essa pessoa torna-se o eco da música de outra pessoa, intérprete de um papel que não foi escrito por ela *

* Hoje cada qual tem medo de si próprio; esquece o maior dos deveres: o dever que tem consigo mesmo *

* A coragem abandonou a nossa raça. Talvez nunca a tenhamos tido. O temor da sociedade, que é a base da Moral, e o temor a Deus, que é o segredo da religião..., eis as duas coisas que nos governam *

*Nada pode curar a alma, senão os sentidos; como não há, para curar os sentidos, nada como a alma (...). Este é um dos grandes segredos da vida: curar a alma por meio dos sentidos, e o sentido por meio da alma. *

*Tenho inveja de todas as coisas cuja beleza não morre. Tenho ciúme do retrato que você fez de mim. Por que ele há de guarda o que perderei? Todo momento que passa, tira-me alguma coisa para dar a ele. Oh! Se fosse possível o inverso! Se o retrato mudasse, e eu fosse sempre o que sou agora! Por que pintou esse quadro? Ele zombará de mim dia-a-dia. Zombará horrivelmente! *

*Adoro prazeres simples..., eles são o último refúgio do complexo*

* O pecado é realmente o único elemento colorido que subsiste na vida moderna*

*Os moços querem ser fiéis, e não são. Os velhos querem ser infiéis e não podem *

*Mas o caminho dos paradoxos é o caminho da verdade. Para testar a verdade, precisamos vê-la na corda bamba. É quando as verdades se tornam acrobatas, que podemos julgá-las. *

*A vantagem das emoções é que els nos descaminham; a vantagem da ciência é não ser emotiva *

*Certas criaturas têm a mania de dar bons conselhos, precisando tanto deles para si... É o que chamo de cúmulo da generosidade. *

*Os únicos artistas pessoalmente deliciosos que conheci são os maus artistas. Os bons artistas existem simplesmente no que fazem; eis por que, em pessoa, são tão desinteressantes. Quanto piores os versos, tanto mais pitoresco é o poeta. (...)Ele vive a poesia que não soube escrever. Os outros escrevem a poesia que não conseguem concretizar. *

*É a paixão sobre cujas origens nos iludimos, a que exerce sobre nós a tirania mais despótica... *

*Amar é exceder-se a si próprio. *

*Ser bom, é estar em harmonia consigo mesmo. A discordância está em sermos forçados a viver em harmonia com os outros. *

* Sim, você há de gostar de mim sempre. Eu represento para você todos os pecados que você nunca se animou a cometer*

, 11:05 AM


Comments:
Quarta-feira, Julho 16, 2003

Eu sempre gostei de histórias. E as escrevia antes mesmo de aprender a escrever..., fazia desenhos e pedia que os mais velhos redigissem sob minha arte, as palavras que eu ditava. Penso que entrei no campo da psicologia não para lidar com os problemas alheios, mas para compartilhar as histórias. A nossa sensação de individualidade só tem sentido dentro de uma continuidade temporal: meu nome é tal, nasci ali, fiz isso e aquilo, pretendo ser tal coisa... E é nessa continuidade, nessa história, que eu acho (ou perco) quem sou.
Nós vivemos para contar histórias. Contamos a história do universo e da vida na biologia, na física, na química. Contamos a história de nossas sociedades e de nossas emoções na sociologia, na antropologia, na psicologia, na filosofia...
Construir e viver histórias é um dos grandes sentidos humanos...
Todos os dias assistimos a novelas, filmes; lemos revistas, livros..., nos deleitamos com histórias alheias, ansiosos por descobrir o sentido de nossa própria história.
Muitas vezes procuramos cartomantes, videntes, gurus, oráculos..., ansiosos por saber a respeito do nosso futuro, como leitores curiosos que pulam as páginas de um livro à cata de momentos mais interessantes..., ou querendo saber como toda aquela aventura vai terminar.
Sonhamos..., e sonhos não são nada além de histórias que contamos a nós mesmos, a respeito de nós próprios.

, 8:09 AM


Comments:
Terça-feira, Julho 15, 2003

Várias caras do Brasil


, 1:09 PM


Comments:
Segunda-feira, Julho 14, 2003

Pequenas alegrias..., é uma arte cultivar esses momentos. Como no texto que apresentei no Domingo, temos que nós corremos demais atrás de felicidade e, na pressa, perdemos a beleza do instante. Saber olhar, saber enxergar, saber desfrutar do detalhe, daquele detalhe multiplicador,... é como ser um artista a montar em uma tela branca um mundo de possibilidades e cores.
Esta foto é um exemplo disso. Foi tirada por uma amiga, na rua da casa dela. Uma, dentre tantas ruas deste mundo..., com tantas belezas a serem vistas, mas para as quais nossos problemas e preocupações diárias nos cegam.
Saber saborear o que é pequeno, o que é sutil..., é um dos grandes segredos da felicidade. Deixo hoje aqui a foto dessa pequena alegria que me encheu os olhos.


, 5:18 PM


Comments:
Domingo, Julho 13, 2003

Tenho o costume de procurar livros em sebos..., geralmente isso é semelhante ao garimpo em uma busca de alguma pepita valiosa, perdida por entre as pedras brutas. É trabalho que exige um certo tempo, mas costumo encontrar meu ouro procurado. "Gasto" tempo na "pequena alegria" de encontrar minúsculos diamantes em volta aos carvões. O texto que passo a vocês é um desses diamantes. Foi encontrado em um sebo e foi escrito pelo alemão Herman Hesse no ano de 1899... há mais de cem anos atrás, portanto. Tenho-o vinculado entre meus conhecidos e resolvi compartilhá-lo com vocês porque vejo que este texto é prova máxima que nós todos evoluímos tecnologicamente, mas nos falta uma ética..., uma ética de nível superior para além do consumismo e do individualismo desenfreados de nossos dias..., uma ética para além da pressa de nossas máquinas que instituem em nossos corpos, também, a velocidade e a necessidade de eficiência... o que nos dá a triste sensação de sermos peças de engrenagens e não seres vivos.
Deixo vocês com o texto de Hesse... pleno da mais pura atualidade.

*****************************************************************************************

¿Consideráveis parcelas da nossa população atualmente vegetam numa apatia triste e sem amor. Espíritos mais refinados consideram opressivas e dolorosas nossas formas de vida pouco artísticas, afastando-se para o ostracismo. Na arte e na literatura, após um breve período de realismo, sente-se por toda parte uma insatisfação cujo mais nítido sintoma é a nostalgia do Renascimento e o neo-romantismo. _ Falta-lhes fé!_ exclama a Igreja, enquanto Avenarius afirma: _Falta a arte!
Para mim, tanto faz. Mas penso que falta alegria. O impulso para uma vida mais nobre, a concepção da vida como algo alegre, como uma festa, é isso no fundo a razão pela qual o Renascimento nos atrai com tanta força. A alta valorização do momento, a pressa como razão mais importante da nossa vida, é sem dúvida o inimigo mais perigoso da alegria. Com um nostágico sorriso, lemos os idílios e viagens sentimentais de épocas passadas. Nossos avós tinham tempo para tudo. (...) Parece triste, mas inevitável que essa pressa da vida atual nos tenha influenciado profunda e efetivamente, desde os começos da nossa educação. Infelizmente essa pressa da vida moderna tomou conta também do nosso mínimo lazer; nossa maneira de gozarmos algo é quase tão nervosa e desgastante quanto a execução de nossos trabalhos. ¿O máximo rendimento possível, com a maior rapidez possível¿, é a solução. Daí resulta sempre mais diversão e sempre menos alegria. Quem jamais observou uma grande festa nas cidades ou capitais, ou os lugares de diversão das cidades modernas, lembra-se, com dor e repulsa, de rostos febris e desfeitos, de olhos fixos. E esse modo de gozar doentio, atiçado pela eterna insatisfação, e ainda assim eternamente saciado, também tem lugar nas casas de teatro, nas óperas, até nas salas de concerto e galerias de arte. Visitar uma exposição de arte moderna raramente é um prazer.
Nem o homem rico está livre desses males. Poderia, mas não consegue. É preciso participar, estar na moda, permanecer na crista da onda.
Também eu não sei, como ninguém sabe, uma receita universal contra esses inconvenientes. Mas gostaria de lembrar apenas um remédio particular, antigo, infelizmente bem retrógrado: prazer comedido é prazer dobrado. E não ignorem as pequenas alegrias!
Portanto: comedimento! Em certos meios, é preciso coragem para deixar de assistir a uma estréia. Em círculos mais amplos, é preciso coragem para ainda não conhecer uma novidade literária, algumas semanas depois de seu aparecimento. E nos meios maiores, passamos vergonha se ainda não lemos o jornal de hoje. Mas conheço algumas pessoas que não se arrependem de terem tido tal coragem. (...)
Quem estiver acostumado em ver quadros em massa, que tente, se ainda for capaz, passar uma hora ou mais diante duma só obra-prima, e se satisfazer com isso por aquele dia. Apenas sairá ganhando.
Da mesma forma proceda o leitor inveterado, e assim por diante. Poderá aborrecer-se algumas vezes por não poder participar duma conversa sobre alguma novidade. Provocará sorrisos. Mas em breve ele é que estará sorrindo, e saberá tudo melhor que os outros. E todo aquele que não for capaz de alguma outra limitação, tente o hábito de pelo menos uma vez por semana ir dormir às dez horas. Vai se admirar do quanto essa pequena perda será compensada com tempo e prazer. Ao hábito do comedimento, liga-se intimamente a capacidade de saborear as "pequenas alegrias". Pois essa capacidade (...) pressupõe coisas que na vida cotidiana moderna foram em grande número perdidas e atrofiadas, isto é, certa medida de alegria, amor e poesia. Essas pequenas alegrias, particularmente concedida ao homem pobre, estão tão inaparentes e radicalmente espalhadas na vida diária, que a sensibilidade embotada de incontáveis trabalhadores mal consegue ser tocada por elas.
Não chamam atenção, não são louvadas, não custam dinheiro! ( Estranhamente, nem os pobre sabem que as mais belas alegrias são sempre as que não custam dinheiro).
(...)
Cada dia experimentar tanto quanto possível de pequenas alegrias, e distribuir os prazeres mais extenuantes, maiores, parcimoniosamente pelos dias de feriado e pelas horas livres, é o que eu gostaria de aconselhar a qualquer pessoa que sofre de falta de tempo e de algum desgosto. Para nos recuperarmos de qualquer coisa, sobretudo para alívio diário, foram-nos dadas as pequenas alegrias, e não as grandes¿.*
* HESSEE, H. ¿ Pequenas Alegrias. Editora Record, Rio de Janeiro, 1980.


, 1:33 PM



Anteriores