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Ontem eu dei a aula da saudade para os formandos do curso de Pedagogia. Para quem não conhece esse ritual, tal aula é como se fosse a última que eles têm antes da formatura. Por isso ela foge ao convencional. Por esse mesmo motivo ela também causa um certo estresse. Os alunos parecem gostar que eu dê a aula da saudade e fiquei sabendo que por um voto o os formandos de Secretariado Executivo também não me escolheram para ministrar essa derradeira aula. A aula da saudade é uma homenagem que os alunos fazem a um professor e, sinceramente, fico feliz com essa homenagem porque é uma coisa viva e interativa. Sou um homenageado que não sustenta uma figura decorativa em uma sessão solene..., ao contrário, sou convidado para estar dentro do calor das interações em uma sala de aula com pessoas que compartilham uma mistura de sentimentos: tanto euforia quanto também medo da Segunda-feira (depois que os festejos de formatura ¿ coleção, baile, churrasco) terminarem.
Um dos desafios da aula da saudade é buscar deixar à flor da pele as emoções que atravessam aquele momento: um misto de saudade pelo que está terminando, com vontade de começar uma nova vida e também medo do novo.
Penso que o novo assusta mais do que encanta. Por mais que busquemos liberdade, temos pavor a ela porque tememos pela ausência de referências. Sempre estamos esperando por alguém que nos mostre um caminho. Como me disse certa vez um amigo: Nós queremos ser libertários, mas não sabemos ser livres. Eu particularmente concordo com ele. Ser livre é arriscar-se dentro de seu próprio sabor..., e o quanto todos nós ignoramos o sabor que temos...?! A nossa falta de coragem de colocarmos o que sentimos no mundo é que mata nossa criatividade. É mais seguro repetir o que deu certo (pior é quando esse tal certo vem da imposição dos outros e não da nossa própria experiência) do que inventar uma nova maneira de sentir, de viver, de estar junto.
Eu sou uma pessoa medíocre (no sentido em que estou dentro da média estatística), sou muitas vezes certinho demais, controlador demais..., mas ao mesmo tempo há algo em mim que me empurra para ousar, principalmente quando ninguém possui expectativa alguma ao meu respeito. Esses lampejos de ousadia e honestidade para comigo mesmo às vezes assustam as pessoas que esperavam um comportamento adequado e padronizado da minha parte. Muitos se irritam, se decepcionam..., outros por sua vez abrem espaços dentro do vento de liberdade que eu ouso fazer soprar (para minha alegria e angústia).
Pela postura libertária já fui duramente atacado...; pela postura libertária igualmente já fui homenageado ¿ como aconteceu ontem.
Eu tenho um sabor só meu... e a verdadeira diferença consiste em você assumir seu próprio sabor..., não há ninguém no mundo semelhante a você, ou que tenha o seu aroma ou gosto. Podem existir sabores melhores ou piores que o seu, mas nunca igual. O problema é que somos críticos demais conosco. Só nos permitimos nosso sabor se tivermos a garantia de que ele seja um manjar dos deuses. Mas como geralmente não temos tal garantia, ficamos extasiados e/ou incomodados com o sabor daqueles que se arriscam..., mas sempre inseguros com relação ao nosso próprio. Se arriscamos a sermos honestos e intensos conosco, é claro que não agradaremos a todos..., muitos irão se afastar, nos criticar, nos questionar..., (nem todos que gostam de melancia, apreciam o melão) mas se insistirmos na honestidade com nossa própria vida, se nos propormos a, de vez em quando, fazer falar as intensidades que nos envolvem, as pessoas que nos apreciam, aquelas que verdadeiramente nos amam, terão em nós um banquete. E ontem, sinceramente, ofereci um verdadeiro banquete àqueles formandos.
Sou um grande tolo..., mas amo minha tolice. Talvez aí esteja parte do nosso encanto ¿ no amor que temos pelo que é em nós pequeno, insignificante, íntimo e..., por isso mesmo, singular.
Música inédita e muito linda dos Engenheiros do Hawaii. Aqui vai a letra. A melodia você pode encontrar no último cd da banda, chamado Dançando no Campo Minado, ou clicando aqui. É a quinta canção. Os Engenheiros são uns dos poucos grupos nacionais que ainda resistem em não fabricar música puramente comercial, ou algum enlatado que promova mensagens banais de amor romântico.
SEGUNDA-FEIRA BLUES I
Humberto Gessinger
Onde estão os caras que lutavam dia-a-dia
sem perder a ternura jamais?
Onde estão os caras que desmaterializavam
moedas de dez mil reais?
Onde estão os caras que desconheciam limites
... universal e singular?
Onde estão os caras que desenhavam novas cidades
em guardanapos na mesa de um bar?
Onde estão as provas, onde estão os fatos?
As boas novas, eram só boatos?
Onde estão os atos de bravura e rebeldia
(ternura guerreada dia-a-dia) ?
Será que estamos sós?
Onde estão os caras que pregavam no deserto?
(o deserto continua lá)
Onde estão os caras que deixavam as portas abertas
para a vida poder circular?
Onde está o teatro mágico só para iniciados?
Onde está o espaço não privatizado?
Onde estão os caras que acenavam
com a mão invisível, um mercado para todos nós?
Onde estão as provas, onde estão os fatos?
As boas novas, eram só boatos?
Onde estão os caras que lutavam e cantavam?
Por um mundo ideal eles gritavam:
não estamos sós!
Onde estão os caras que diziam que a guerra ia acabar?
Onde estão os caras que diziam que a maré ia virar?
Onde estão os caras que espalharam o vírus
prometeram a cura e viraram as costas?
Onde está o outro? Onde está o diferente?
Onde está o comum a toda gente?
Onde estão as provas, onde estão os fatos?
As boas novas, eram só boatos?