Devires
A expressão mais bela, guardada numa gaveta de badulaques, fica com cheiro de naftalina. Martha
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Sexta-feira, Agosto 08, 2003

Um segredo

Vou te contar um segredo. Não sei se você vai gostar de saber a respeito dele porque, no fim das contas, os segredos existem para nos proteger de algo que incomoda. Mas vamos a ele: você sabe o que acontece com a vida e com o mundo, depois que você morre? Ambos continuam muito bem sem você...

, 5:55 PM

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Baixando o espírito


Histeria às vezes me irrita. Até agora há pouco, estava eu tranqüilamente em um restaurante, comendo uma picanha, salada e batata frita..., além de estar fazendo uma saudável mistura entre vinho e cerveja. A companhia era agradável, apesar de na mesa eu estar rodeado por duas mulheres megalomaníacas, e um cara que era meio doido mesmo. Ficava ele querendo debater comigo a respeito do fato de a psicologia não ser um conhecimento científico..., e defendia seus argumentos entre citações de Kant, Descartes, e outros lá que nunca ouvi falar. Nessas horas eu me resigno a ficar calado, olhando atentamente o meu interlocutor, fingindo (com um máximo de credibilidade) dar-lhe atenção. Ah, meu Deus... estou comendo picanha e bebendo vinho e vem um sujeito debater o aspecto científico da psicologia? Tenha-me dó! O problema é que uma das mulheres da mesa, vendo que a conversa não centrava em torno dela (apesar de todos os seus eufóricos esforços por chamar a atenção), começou a ¿receber¿ o espírito de um suposto preto velho bem no meio do restaurante. Não vou dizer que não acredito nessas coisas..., como bem disse James Hilton, ¿nas coisas que ninguém entende, cada um acredita no que melhor lhe convém¿. Mas pelamordedeus..., a menina conseguiu chamar toda a atenção para si e acabou com o encontro. Já pensou se todo mundo fosse tomado por um espírito assim a qualquer hora e lugar? Pelo menos, antes do espírito baixar, deu para comer duas travessas de picanha :-)

, 12:39 AM


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Quinta-feira, Agosto 07, 2003

Carta a uma amiga (parte 2)

Eu falo muito, mas pouco me revelo. E nem em um caderno inteiro de perguntas eu me daria conta disso :-) Sou um cara tímido; uma amiga descobriu isso quando me usou de cobaia na aplicação do teste de PMK, quando ela fazia essa matéria. Me disse ela surpresa, ao relatar o resultado: "Oh, dudu, deu tudo normal, boa coordenação motora..., mas uma coisa eu achei estranha..., deu que vc é tímido!" Concordei, com um risinho sem graça de quem se vê meio exposto, quando não esperava por tal experiencia. É como diz Gibran, quem nos compreende rouba algo de nós. Eu sou meio caramujo (se pudesse ser um bicho, escolheria ser caramujo), mas descobri que a melhor maneira de se esconder é ser sincero. Assim, as pessoas acham que chegaram à realidade final dos fatos e não procuram cavar mais fundo..., e assim algo fica escondido para além de minha mais cristalina sinceridade.

, 4:27 PM

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... porque, no fim das contas, as idéias são como borboletas... criaturas frágeis que desaparecem em meio das folhagens... É preciso ter paciência para pegá-las em vôo..., não pode ter pressa, porque elas podem ser espantadas por nossa correria. Caçar idéias é ter uma rede fina..., para produzir movimento sem peso..., para capturar a leveza sem machucá-la (ah eu e meu falar poético... adoro isso...:-)

, 2:48 PM


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Quarta-feira, Agosto 06, 2003

... quebrando a cabeça para escrever um texto sobre o virtual para um trabalho lá do mestrado... Quando a gente se sente obrigado a fazer algo, parece que as idéias fogem. Tenho que tentar recapturá-las :-) Ficar a postos com minha rede de borboletas...

, 10:16 PM


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Domingo, Agosto 03, 2003

Só escrevo aqui o que eu mesmo necessito ouvir. Longe de mim querer ensinar sobre a vida a qualquer pessoa. Já temos responsabilidades demais com a nossa para nos comprometermos com os projetos alheios. Que cada um assuma e viva sua própria experiência de existir e tire dela as conclusões que achar necessárias...

Fui... :-)

, 6:08 PM

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Estava estudando um pouco e me deparei com os escritos de um filósofo da educação chamado Jorge Larrosa Bondía. Ele debatia sobre a dimensão do experienciar, do que é ter uma experiência. Acho interessante colocar aqui alguns trechos dos argumentos dele:

A experiência é o que nos passa, nos acontece, nos toca. Não o que se passa, o que acontece, ou o que toca. A cada dia se passam muitas coisas, porém, ao mesmo tempo, quase nada nos acontece. (...) Nós somos sujeitos ultra-informados, transbordantes de opiniões e superestimulados, mas também sujeitos cheios de vontade e hiperativos. E por isso, porque sempre estamos querendo o que não é, porque estamos sempre em atividade, porque estamos sempre mobilizados, não podemos parar. E, por não podermos parar, nada nos acontece.
A experiência, a possibilidade de que algo nos aconteça ou nos toque, requer um gesto de interrupção, um gesto que é quase impossível nos tempos que correm: requer parar para pensar, parar para olhar, parar para escutar, pensar mais devagar; parar para sentir, sentir mais devagar, demorar-se nos detalhes, suspender a opinião, suspender o juízo, suspender a vontade, suspender o automatismo da ação, cultivar a atenção e a delicadeza, abrir os olhos e os ouvidos, falar sobre o que nos acontece.(...) O sujeito da experiência é um sujeito exposto (...) É incapaz de experiência aquele a quem nada lhe passa, a quem nada lhe acontece, a quem nada lhe sucede, a quem nada o toca, nada lhe chega, nada o afeta, a quem nada o ameaça, a quem nada ocorre.


As palavras de Larrosa me lembraram de um pequeno texto de Otto Lara Resende, chamado Vista Cansada. Na nossa pressa por viver, vamos perdendo a experiência de viver. Acumulamos vivências, mas não necessariamente experiências. Podemos viajar pelo mundo e não experienciar nada. Por sua vez podem ocorrer uma imensidão de experiências quando nos propomos a viver a intensidade do instante. Para viver a experiência é preciso desaprender, desarmar, soltar-se para o momento. Segue abaixo o texto do Otto:


Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse o poeta. Um poeta é só isto: um certo modo de ver. O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não-vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos é familiar já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio.
Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta, se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê. Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio do seu escritório. Lá estava, sempre pontualíssimo, o mesmo porteiro. Dava-lhe bom dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência. Um dia, o porteiro cometeu a descortesia de falecer.
Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima idéia. Em 32 anos, nunca o viu. Para ser notado, o porteiro teve de morrer. Se um dia, em seu lugar, estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser que também ninguém desse por sua ausência. O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver. Gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos.
Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de tão visto, ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos.
É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.


Um beijão prá todo mundo

, 4:44 PM



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