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Domingo, Agosto 31, 2003

Há pouco tempo uma criança morreu. Os médicos não souberam diagnosticar o problema, e a menina foi morrendo aos pouquinhos, como o sol ao final do dia. Na semana passada o coraçãozinho dela parou... e ela partiu.

A dor de todos foi dor intensa. A mudança que a morte traz assusta a todos, principalmente quando é uma jovem criança a passar por essa experiência (uma experiência que de uma forma ou de outra, acaba sendo uma experiência solitária).

Tudo neste universo tem um toque de incerteza. Aparentemente tudo está como antes... o sol brilha no céu, o vento sopra, os nossos conhecidos nos cumprimentam... tudo está como deve ser. Mas ao mesmo tempo, nada hoje é igual ao que era antes. Aquela menina não está mais entre nós; o vento que nos toca a face já não é mais o mesmo vento que nos acalentou pela manhã. Tudo muda de uma forma silenciosa e quase imperceptível.

Mas mesmo assim, insistimos em perpetuar nossas pequenas e frágeis certezas. Iniciamos relacionamentos (amorosos ou de amizade) na esperança de termos finalmente encontrado as pessoas certas, os companheiros verdadeiros, aquele amor para o resto de nossas vidas. O tempo, todavia, vai enfraquecendo as amizades, erodindo o nosso amor e de repente nos deparamos com o fato de que as coisas não são mais como eram antes. Damo-nos conta, repentinamente, que nossos eternos amigos já não são mais tão presentes e que não amamos mais com tanta intensidade aquele nosso então eterno amor. O poeta Mário Quintana expressou isso na seguinte pergunta: "Quanto tempo dura um amor eterno?"

Os relacionamentos se constroem sobre a expectativa de eternidade, de sobreviverem a todas as dificuldades. Mas muitas vezes não é bem assim que as coisas acontecem. As separações, as perdas, são fatores inevitáveis e na maioria das vezes não estamos preparados para elas. Um dos personagens de Shakespeare, em um súbito vislumbramento da fragilidade do seu relacionamento com a amada, disse: "A ruína me faz ruminar uma idéia: que o tempo deve vir arrebatar-me o amor. Para mim isso é morte e não posso senão tua perda temer e chorar por te Ter".

Vivemos como que em um barco em alto mar. Construímos nossa vida e nossos relacionamentos, confiando que o nosso verdadeiro chão é aquele que pisamos dentro do barco, quando na verdade, nosso "chão" é o mar, que nos conduz a um destino ignorado. Podemos nos desesperar por isso, como o faz o personagem de Shakespeare e, nesse desespero tentar evitar qualquer relacionamento mais profundo (seja com pessoas ou objetos), evitar qualquer envolvimento que mais cedo ou mais tarde representará para nós uma perda, uma ruptura e uma incerteza.

Com isso algumas pessoas chegam mesmo a temer a vida. Gostariam de um caminho mais previsível, mais delimitado e menos arriscado. E se alguns não se apegam a nada para não correr o risco de perder qualquer coisa, outros, por sua vez, apegam-se a tudo de uma maneira intensa: querem possuir a exclusividade dos amigos, a exclusividade das atenções, a exclusividade sobre o amor... na tentativa de nada perder, de tudo controlar. São os dois lados da moeda da incerteza, da insegurança, do medo de viver.
Fórmulas para resolver isso? Sinto muito, mas não as tenho. Estou no mesmo barco que vocês... no mesmo barco que se equilibra fragilmente sobre o abismo das águas do mar.

Mas se posso deixar uma direção possível, cito as palavras do Dalai Lama, mestre espiritual dos budistas tibetanos:
"Velhos amigos se vão, novos amigos chegam. É como os dias: os velhos se vão, os novos chegam. O que importa é torná-los cheios de sentido e significado: tanto faz que seja um amigo ou um dia".

, 2:39 PM



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