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Zeca Pagodinho canta "deixa a vida me levar, vida leva eu...", Skank canta "vou deixar a vida me levar pra onde ela quiser..."
Acho isso uma atitude inconseqüentemente perigosa. A vida não é uma potência moral, ou seja, ela não é boa nem ruim..., ela é sempre produção..., produção de expressões de criação e também produção de expressões de morte. As mesmas bactérias e vírus que nos matam, são igualmente abençoados com o sopro da vida (ainda que muitos discordem do caráter de "vivo" do vírus).
A vida é um jogo de forças..., e para sobrevivermos temos tanto que nos entregar a ela quanto também resistir. Há pouco tempo estava lendo um livro chamado A Casa Subjetiva, de autoria de Ludmila Brandão*. Esse livro é uma intercessão entre a Arquitetura, a Filosofia e a poesia. Nele, eu encontrei o seguinte texto:
"A cachoeira refresca em dias de calor, fortalece músculos, massageia as costas, mas, também, se é o único lugar a ser ocupado, reduz sistematicamente a temperatura do corpo, enfraquece e trinca os ossos, enregela, enruga, enroxesse as extremidades. Sem resistência, sem revide, a cachoeira leva qualquer coisa consigo, como a mais submissa das gotas para o oceano feito de águas iguais."
A vida, como cachoeira, encanta e arrasta..., refresca e destrói. É preciso estar na vida, mas também resistir..., insistir, inventar novas formas de estar vivo, novas formas de sonhar, outras maneiras de amar e sentir..., e não apenas se deixar levar como um pedaço de madeira morta, covardemente acomodada em uma postura de não criação.
* BRANDÃO, L. L. - A casa subjetiva. São Paulo: Perspectiva, 2002