Devires
"Os modos de vida inspiram maneiras de pensar, os modos de pensar criam maneiras de viver." Gilles Deleuze
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Quarta-feira, Junho 02, 2004

Bravura é chegar em casa de madrugada bêbado e sujo de batom, ver a esposa esperando com uma vassoura na mão e ainda ter peito pra perguntar:

"Você vai varrer a casa ou vai voar pra algum lugar?"

, 9:37 PM


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Terça-feira, Junho 01, 2004

No Cruzar de um Olhar

Jairo conheceu Lucinha em uma manhã ensolarada de março. Ela tinha uma mochila colegial nas costas, trajava uma longa camisa branca que cobria sua calça jeans até os joelhos. De cabelos loiros, Lucinha possuia um rosto arredondado, com bochechas salientes e uma boca pequena. Pequeno também era o seu porte físico. Sua cabeça chegava à altura dos ombros de Jairo. O seu rosto era uma mistura de sério e alegre e, em um relance, seria difícil de se dizer quais os sentimentos que passavam dentro daquela menina de quatorze anos que voltava prá casa, após mais uma manhã de aula .

Naquele primeiro encontro, Jairo estava engravatado. Calça de linho, camisa de seda, sapatos de couro. Havia saído de seu trabalho e ia almoçar em um restaurante próximo. Sempre saía para almoçar mais ou menos à mesma hora em que Lucinha saía de sua aula. Nada fora premeditado, e o encontro com a menina fez parte de uma dessas coincidências que ocorrem na vida da gente. Jairo tinha um rosto sisudo, apesar de juvenil. Cabelos castanhos, olhos amendoados cor de folha seca, pele clara. Não era alto. Novo ainda, tinha seus vinte e cinco anos e estava tentando há alguns meses conquistar uma colega de trabalho.

Saiu, naquele dia, desanimado da empresa em que trabalhava. A manhã havia sido difícil. Seu chefe estava nervoso e as más línguas adiantavam que a esposa dele havia descoberto a existência de uma amante. Jairo mal esperava por aquele momento de sair à rua para respirar um pouco e descansar na cadeira do restaurante em que almoçava.

Mas naquela manhã ele descobriu , quase que por acaso, os olhos de Lucinha, e ela os olhos dele. Foi algo meio fugidio..., um relance,... um instante apenas em que as pernas de Jairo amoleceram e seu estômago se apertou. Um instante em que o coração de Lucinha se acelerou e seu rosto enrubeceu.

Depois daquele instante/eternidade, Jairo ficou sobressaltado: "como poderia olhar daquele jeito para uma criança?"

Mas a partir daquele dia, os olhos dela pousavam sobre ele sempre no momento em que os dois se cruzavam na rua. Jairo se esforçava para ficar sisudo, corroendo-se de vontade de olhar para ela também. Lucinha tentou uma maior aproximação, com o tempo, e passou a pedir a ele informação sobre as horas. Jairo, de repente, assustou-se ao perceber que gaguejava ao responder à menina. "Imbecil, imbecil, imbecil...você não vê que ela é apenas uma criança?" recriminava-se.

Mas de nada adiantavam as recriminações, pois aquela menina o incomodava cada vez mais. Prometeu a si mesmo, então, que iria abordá-la; conversar com ela: "Sim; dessa forma eu verei como ela é apenas uma criança; dessa forma eu marcarei tanto para ela quanto para mim essa distância não apenas de idade, mas também de perspectiva de vida que nos separa."

Mas ele não fez isso... nunca chegou a fazer! E os dois, pouco a pouco, ao se cruzarem, passaram a trocar olhares silenciosos e cúmplices.

Os anos se passaram, a Lucinha cresceu e o Jairo também. Ele se casou com sua colega de trabalho e teve dois filhos. Ela não chegou a se casar, mas teve uma filha. Todavia, mesmo assim, sempre que se encontravam, olhavam-se! Alguma coisa os dois compartilhavam ali. Cada um via nos olhos do outro todos os sonhos que não foram realizados; estava nos olhos de cada um a possibilidade de um futuro que não aconteceu. Durante todos aqueles anos, Jairo colocou nos olhos de Lucinha as suas fantasias; e ela fez o mesmo para com os olhos dele. Não precisava que os dois se conhecessem nem que se falassem para compreenderem o que acontecia (na verdade, nunca conversaram e um nunca soube o nome do outro).

Por toda a vida dos dois, bastava aquele momento, aquele instante apenas, para demonstrar a existência de um amor tão eterno e profundo e intenso e raro que só podia ser vivido..., que só podia sobreviver..., no cruzar de um olhar.

, 10:51 PM



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