Devires
"Os modos de vida inspiram maneiras de pensar, os modos de pensar criam maneiras de viver." Gilles Deleuze
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Domingo, Novembro 07, 2004

Um texto que recebi em meu e-mail hoje, de um conhecido que se feriu na ousadia de arriscar a viver:

Entre a dor e o nada

Prefiro o escuro da noite a nunca ter me extasiado com o brilho da Lua. Prefiro o frio da chuva a nunca ter sentido o cheiro de terra molhada. Prefiro o recolhimento cinza e solitário do inverno a nunca ter me sentido inebriada pela magia acolhedora do outono, encantada pela alegria colorida da primavera e seduzida pelo calor provocante do verão.
E nesta exata medida, prefiro a tristeza da partida a nunca ter me esparramado num abraço. Prefiro o amargo sabor do "não" a nunca ter tido coragem de sair da dúvida.
Prefiro o eco ensurdecedor da saudade a nunca ter provado o impacto de um beijo forte e apaixonado, daqueles que colocam todos os hormônios no lugar! Prefiro a angústia do erro a nunca ter arriscado.
Prefiro a decepção da ingratidão a nunca ter aberto meu coração. Prefiro o medo de não ter meu amor correspondido a nunca ter amado ensandecidamente. Prefiro a certeza desesperadora da morte a nunca ter tido a audácia de viver com toda a minha alma, com todo o meu coração, com tudo o que me for possível. Enfim, prefiro a dor, mil vezes a dor, do que o nada. Não há -de fato- algo mais terrível e verdadeiramente doloroso do que a negação de todas as possibilidades que antecedem o "nada". E já que a dor é o preço que se paga pela chance espetacular de existir, desejo que você ouse, que você pare de se defender o tempo todo e ame, dê o seu melhor, faça tudo o que estiver ao seu alcance, e quando achar que não dá mais, que não pode mais, respire fundo e comece tudo outra vez. Porque você pode desistir de um caminho que não seja bom, mas nunca de caminhar. Pode desistir de uma maneira equivocada de agir, mas nunca de ser você mesmo. Pode desistir de um jeito falido de se relacionar, mas nunca de abrir seu coração. Portanto, que venha o silêncio visceral que deixa cicatrizes em meu peito depois das desilusões e dos desencontros. Mas que eu nunca, jamais deixe de acreditar que daqui a pouco, depois de refeito e ainda mais predisposto a acertar, vou viver de novo, vou doer de novo e sobretudo, vou amar mais uma vez..

, 4:38 PM



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