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Parte de minha resposta a um e-mail pedindo minha opinião sobre a questão da felicidade...
Olha, o que posso te oferecer é minha opinião. Isso
porque, para mim, a felicidade nunca é um lugar a se
alcançar. A vida plena nunca é um local, mas um
processo. O problema é que todos nós estamos por
demais imersos em um mundo de significações
platônicas. Platão foi um filósofo grego que trouxe a
nós essa significação de que existe um mundo
maravilhoso e perfeito por traz de todas as tristezas
e mazelas do cotidiano. Platão acreditava na
existência de uma esfera ideal..., ideal exatamente
porque era imutável, porque era eterna.
Nós nascemos marcados por essa busca, e as nossas
noções de felicidade margeiam muito essa perspectiva.
Pensamos que, um dia, poderemos alcançar esse estado
de plenitude e satisfação absoluta, sem mudanças, sem
alterações. Projetamos, então, mundos perfeitos que
vão se materializar quando formos mais velhos, ou
quando nos casarmos, ou quando nos formarmos na
universidade, ou quando tivermos um emprego, dinheiro,
amores... Passamos a acreditar que nossa felicidade
encontra-se atrelada a nossas aquisições ou a
conquistas.
Dessa forma, acabamos correndo o risco de nunca nos
reconhecermos felizes com o que temos e somos, pois
pensamos na felicidade perfeição eterna.
Então, é muito fácil encontra uma multidão de pessoas
passeando pela vida e se lamuriando pela existência
que carrega nas costas como sendo um fardo descomunal.
Foram seduzidos pela perspectiva de que a alegria e a
felicidade se encontram em um "lá", ignorando as
possibildades de estar presente em um "aqui".
Porém, penso que a felicidade não é algo que se
conquista, mas sim algo que se cultiva. Vidas felizes
não necessariamente são aquelas que acumulam bens...,
mas que significam sua existência como possuindo
sentido e valor. Muitas pessoas, aparentemente
realizadas, mergulham em profundas depressões pelo
mais ausente sentido que encontram em suas vidas.
Não é mais, portanto, uma questão de encontrar a
felicidade, mas sim de produzi-la. E produzir
felicidade é começar a produzir igualmente um sentido
no presente, no agora, neste instante. Um pensador
francês chamado Gilles Deleuze muito sabiamente
anunciou, em um pequeno livro que escreveu a respeito
de Nietzsche, que "Os modos de vida inspiram maneiras
de pensar, os modos de pensar criam maneiras de
viver."
Ou seja, de certa forma, somos levados por nossas
produções culturais a considerar que só com o acúmulo
de dinheiro, de amores, de viagens, de conhecimento,
etc, teremos condições de sermos felizes. Porém,
habitamos uma sociedade que cultiva a insatisfação,
que cultiva a busca da novidade sempre inalcançável e
que sonha com um lugar, no futuro, que se chama
felicidade. É uma sociedade que manufatura a
felicidade, falseando-a, por exemplo, nas reportagens
fotográficas de revistas como "Caras".
Daí o fato de a maioria, então, não se sentir feliz na
vida que se tem, porque fica mais tempo pensando na
vida que gostaria de ter do que na que possui e
respira. Corremos demais à cata da felicidade e de
experiências prazerosas..., e, nessa correria,
deixamos de experienciar muita coisa, de viver muita
coisa, achando que acumular e experienciar são a mesma
coisa, mas não são. Dessa maneira, muitas coisas podem
acontecer, mas muito pouco NOS acontece..., e acabamos
passando pela vida, sem sentir que vivemos. Isso me
faz lembrar uma palavras creditadas a Confúcio:
"Há pessoas que perdem a saúde para juntar dinheiro e
depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde. Por
pensarem ansiosamente no futuro, esquecem o presente,
de tal forma que acabam por nem viver no presente nem
no futuro. Vivem como se nunca fossem morrer e morrem
como se nunca tivessem vivido..."