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Quarta-feira, Dezembro 28, 2005

UMA HISTÓRIA DE ANO-NOVO
Eduardo Simonini Lopes*

Elisa olhou para o céu.
Os olhos travessos de menina-mulher vislumbraram toda a amplidão de um céu noturno, sem nuvens. Perdeu-se em pensamentos, em recordações, em sentimentos... Lembrou-se do que viveu, perguntou-se sobre o que ainda iria viver. Qual seria o sentido de estar aqui? O sentido de se ter nascido neste mundo?
Elisa olhava as estrelas, querendo respostas a perguntas milenares que nunca foram satisfatoriamente respondidas, nem pelos sábios das ciências, nem pelos mestres das religiões.
O céu estrelado, em seu silêncio que atravessa as eras e se perpetua muito além dos homens, disse algo a ela sobre a vida. As estrelas, também caladas, responderam a seus olhos mudos de menina:
"No universo, querida Elisa, nada dura para sempre..., tudo passa e se transforma, inclusive os celestiais elementos. Viver é estar nadando no oceano da existência. Não há como fugir à vida, como fugir aos problemas, como também não há formas de se fugir aos seus sentimentos. Viver é estar em constante mudança, em constante movimento. "
Mas Elisa não queria viver com aquela sensação de que "tudo passa". Queria segurar o tempo, queria segurar aquele momento de felicidade e tranqüilidade. Havia várias coisas que a aborreciam em seu dia-a-dia das quais ela queria fugir. Mas como fugir aos problemas diários? Como fugir do que ela teme? Ah, como Elisa desejava parar o tempo, a história, a existência e viver eternamente naquele exato momento. Todavia as estrelas diziam que a vida não é parar... é sim estar em movimento...
Mas quanto mais Elisa quisesse controlar a vida, dominar as transformações, parar o tempo, mais impotente ela se sentia.
E as estrelas, sorrindo em brilhos faiscantes, beijaram os seus olhos, dizendo:
"Elisa, de olhos de mel, sorriso triste e semblante comum... nada mais é tão comum quanto antes. Nada mais fica quieto, parado, imóvel como você quer, minha menina. Mesmo sua escolha de vida mais acertada, um dia deixará de sê-la e você terá que partir para o encontro de uma nova dúvida, uma nova decisão, e um novo medo de errar e cair em solidão. Vida é esplendor e risco..., e é necessário se morrer várias vezes, para muitas coisas... mortes diárias, mortes sutis..., para que possamos nos renovar nesta existência. Até mesmo a morte é uma transformação necessária para que a vida prevaleça e se perpetue.
Elisa, minha amiga pensativa, só espero que no final de tudo você possa compreender que faz mais sentido ao crescimento soltar-se das certezas, sem ter medo de se perder para sempre, a ficar agarrada a uma série de amarras e mundos prontos feitos de cimento armado, que mais iludem do que fazem viver. Viver, Elisa, é deixar de ter tantas certezas e ter a coragem de tocar o que não se conhece.
Espero que você não se deixe aprisionar demais pelo passado e pelas coisas já conhecidas e estabelecidas. Espero que você não se perca dentro de suas certezas e esqueça de que nada na vida é para sempre.... ninguém pode antecipar como as coisas serão..., é impossível concebê-las. Tudo acaba, se transforma e se renova, Elisa, seja o corpo, a vida, a terra ou as estrelas."
O céu se silenciou e Elisa voltou ao mundo de seus pensamentos. Resolveu voltar para dentro de sua casa. A meia-noite se aproximava e todos gritavam alegres e esperançosos pelo novo ano que se aproximava. Estava estranhamente convicta de que viver não era ficar a tentar recuperar o passado ou temer o futuro, mas fazer o melhor pelo presente.




, 1:06 PM



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