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Quando ouço uma música que me toca e que estava atrelada a você ou a um lugar, noto que não é a sua pessoa que me atinge com a música e não é o lugar que volta à tona com a canção. A música me faz ter é uma sensação..., uma sensação que passou por você ou que passou pelo lugar, mas que não é nem você, nem o lugar. Não é mais, portanto, uma questão de recordar o passado, mas sentir tudo no agora, neste instante. A música e a sensação têm vida própria. E essa sensação me acompanha em meio a essa canção que me invade. O que ficou, o que é presente, é a sensação que me embrulha os sentidos por meio dessa canção.Por isso a sensação não é você, nem é o lugar. O lugar não está mais lá. Você não mais existe. Não anseio mais repetir você ou o lugar. O que busco é o que encontrei na sensação que emergiu do encontro do lugar, de você e da canção.
No deserto, um tipo de vida se irradia.
No deserto, um tipo de vida fenece..., faz-se morrer,
Enquanto outra passa a nascer.
No deserto, as vidas singulares se encontram; amam-se; enfrentam-se.
Do deserto nasce a possibilidade imprevista e também desaparece a beleza que ninguém chegou a conhecer.
A vida é um deserto..., e "o problema não é atravessar, mas nascer em desertos" (Gilles Deleuze)
Há músicas que dizem o que a gente sente e não consegue expressar. Na voz de Marcus Viana (Sagrado Coração da Terra), Manhã dos meus 33:
Ás vezes eu tenho uma leve impressão;
Ás vezes é uma bruta certeza
De que a nossa vida na Terra
Não é bem uma viagem de férias.
Nascemos pelados, sem nada, sozinhos,
Com o fogo do sol nos olhinhos de nenen.
E ninguém pode nos consolar
Da fome enorme que é viver;
Da intensa dor que é nascer naTerra.
Saudade da luz das estrelas... saudade... estrelas.
Tudo vem, passa por nós e se vai;
Sonhos e planos, fracassos, vitórias;
O bem e o mal, pesadelos e sonhos bons.
Nada mais restará na corrente dos anos
Que ainda tentamos deter a todo custo nas mãos.
Se tudo e todos que amamos se vão,
Meu amor, segura firme a minha mão.
A mente e o corpo, tão breves, são ilusões.
Só restará o coração, a vela de um barquinho
No oceano infinito do tempo a vogar...
E na branca manhã dos meus 33
Eu tive uma bruta certeza
De que a vida humana na Terra
Não é bem uma viagem de férias...
Linda canção..., muito linda mesmo!!!!!!!