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"Marco Polo descreve uma ponte, pedra por pedra.
_ Mas qual é a pedra que sustenta a ponte? _ pergunta Kublai Khan.
_ A ponte não é sustentada por esta ou aquela pedra _ responde Marco _, mas pela curva do arco que estas formam.
Kublai Khan permanece em silêncio, refletindo. Depois acrescenta:
_ Por que falar das pedras? Só o arco me interessa.
Pólo responde:
_ Sem pedras o arco não existe."
(Calvino, Ítalo - Cidades Invisíveis. Rio de Janeiro: Editora Globo, 2003)
Pois o amor funciona como uma usina que nos movimenta. Não falo apenas do amor-romântico - naquela busca eterna por uma pessoa que caiba em nossos sonhos -, falo principalmente do amor enquanto potencialização de um modo de estar no mundo. Amar é ser capaz de inventar um mundo. Quando amamos um quadro, uma profissão, um jardim, uma flor, um homem ou uma mulher, nós os inventamos com o nosso olhar. Eles deixam de ser uma entidade qualquer para se tornarem uma diferença em nossas vidas. Naquilo que amamos colocamos um pouco de nós mesmos, um pouco de nossa vitalidade, um pouco do nosso sentido. Quando nos perdemos dessa intensidade de amor, nos sentimos meio que zumbis, vivendo como que empurrando tudo com a barriga, em meio a um universo tedioso e sem graça. Mas diante a tal sensação de tédio, o universo é inocente; a culpa de nossa paralisia vem da nossa incapacidade de produzir um olhar apaixonado para as coisas. A potência de amar não apenas nos enche de vida, mas nos preenche de sentido.